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Rose CanguaRose Cangua

Com fome, Quênia luta contra Aids

(Nairóbi/Kisumo, brpress) - HIV mata menos que malária e soropositivos abaixo da linha de pobreza mantêm sucesso do tratamento mesmo desnutridos. Por Juliana Resende.

(Nairóbi/Kisumo, brpress) – “O HIV é um desastre nacional”. São palavras do  Dr. Bashir M. Issak, diretor da Divisão de Saúde Reprodutiva do Ministério da Saúde Pública e Sanitária do Quênia. Ele se refere aos tempos mais drásticos em que a Aids realmente matava no país e no mundo, como em 1999. Sendo um microcosmo da África, uma panorâmica da doença no país subsaariano diz muito sobre o impacto e o tratamento do HIV no continente. É o tema desta terceira reportagem que a brpress realizou no Quênia, a convite do International Reporting Project (IRP).

    Atualmente, o HIV mata menos que a velha malária com quem o vírus da Aids abocanha 50% do orçamento anual para saúde do Quênia – correspondente a menos de 5% (US$ 3.2 bilhões) do Produto Interno Bruto (cerca de US$ 65 bilhões), divididos em serviços em geral (35%) e a saúde reprodutiva  (15%) – o país tem uma das maiores taxas de crescimento do mundo, cerca de 1 milhão de bebês nascem anualmente, ainda com a epidemia de HIV. São cerca de dois milhões de soroposotivos entre os cerca de 38 milhões de quenianos. Cinquenta por cento da população vive com menos de US$ 1/dia.

     A vendedora de tomate e milho Rose Cangua, 40 anos, é uma das pessoas sobrevivendo com HIV em condições subhumanas, sem luz, água encanada e esgoto, em Kibera – a maior favela de Nairóbi e da África subsaariana. Ela descobriu ser soropositiva há três anos quando o marido morreu de Aids e deixou com ela cinco filhos – o mais novo, de 4, foi infectado.  Ambos tomam antiretrovirais gratuitos, fornecidos pela ONG Médicos Sem Fronteiras (e pagos pelo governo, segundo Dr. Issak), mas não têm acesso a uma refeição todos os dias. No Quênia, estima-se que entre 25% e 40% dos soropositivos são mulheres entre 20 e 30 anos.
 
Efeitos colaterais

    “A desnutrição é um grande desafio para o tratamento do HIV e resvala na necessidade de políticas públicas mais eficazes”, diz a Dra. Kayla Laserson, diretora do Centers for Disease Control and Prevention do Quênia (KEMRI/CDC), um dos maiores centros de pesquisa e tratamento de doenças no mundo trabalhando com a Global Heatlh Initiative e bancado pelo governo dos Estados Unidos, que investe anualmente  US$ 12 milhões no programa de HIV – o vírus tem quase o dobro de prevalência na população de 15 a 49 anos na província de Nyanza (14,9%), onde o KEMRI/CDC se instalou, há 30 anos, para pesquisar malária, outro forte da instuitição, que no resto do Quênia (7,4%).

    O KEMRI/CDC atende e acompanha cerca de 30 mil pacientes e já testou cerca de 200 mil em Nyanza. Não à toa, foi justamente nesta região de predominância rural, servida pela terceira maior cidade do Quênia, Kisumo, onde a reportagem acompanhou o aconselhamento e a testagem de HIV por agentes do KEMRI/CDC de um casal vivendo abaixo da linha de pobreza. O processo é feito em casa mesmo – onde as pessoas se sentem com mais privacidade. Embora sejam condição sine-qua-non para tratamento e controle da doença, a reportagem sentiu uma pequena pressão e resistência do casal a fazê-los. Para a Dra. Kayla Laserson “aqui [Nyanza] há muito menos estigma. As pessoas vivem e conversam sobre HIV. É melhor ter um número maior de soropostivos conscientes de seu status e em tratamento”, completa.

Interrupcão do ciclo

    Na casa de Eston Wambedha, 34, e sua mulher Florence Achieng, 20, a testagem foi consensual, depois de muita conversa e promessa de sigilo. Ambos autorizaram o teste feito na hora e mais outro confirmativo em laboratório. No entanto, o marido já sabia ser soropositivo e parecia querer saber o status da companheira, afirmando aos agentes de saúde que, desde que foi testado soropositivo, passou a usar camisinha nas relações – fato duvidoso dada a relação de poder que o homem tem sobre a mulher no Quênia, a poligamia culturalmente aceita, a vida precária na miséria extrema  e, principalmente, a demonstração do uso de preservativos que os agentes instistiram em fazer na casa.

    No entanto, o fato de, em 2011, ações do KEMRI/CDC terem conseguido reduzir em 96% a infecção de parceiros sorodiscordantes, administrando antiretrovirais como profilaxia nos negativos, se mostrou um grande avanço na interrupção do ciclo de transmisão do HIV. Mas novamente, sem uma alimentação adequada, higiene e mínima infraestrutura fica difícil ter saúde, apesar de o tratamento ser geralmente mantido e apresentar aderência e eficácia. “Há um imenso progresso no tratamento do HIV/Aids mas ainda há muito o que fazer”, admite Dra. Laserson. Nesse contexto, é claro que o HIV é um problema e tem um alto custo para ser combatido, senão prevenido. Mas a pobreza absoluta ainda é a face mais aterrorizadora do subdesenvolvimento do Quênia e da luta pela sobrevivência.

(Juliana Resende/brpress)

Juliana Resende

Jornalista, sócia e CCO da brpress, Juliana Resende assina conteúdos para veículos no Brasil e exterior, e atua como produtora. É autora do livro-reportagem Operação Rio – Relatos de Uma Guerra Brasileira e coprodutora do documentário Agora Eu Quero Gritar.