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Bryan Cranston em cena de Trumbo - Lista Negra: excepcional. Foto: DivulgaçãoBryan Cranston em cena de Trumbo – Lista Negra: excepcional. Foto: Divulgação

Bryan Cranston: politicamente incorreto

(Londres, brpress) - Ator fala de Trumbo - Lista Negra, filme sobre roteirista de Hollywood preso e banido por ser comunista, pelo qual concorreu ao Oscar. Por Juliana Resende.

(Londres, brpress) – Muitos vão dizer que não teria mesmo para ninguém além de Leonardo DiCaprio neste Oscar 2016. Mas Bryan Cranston e seu Trumbo – Lista Negra, que estreia no Brasil nesta quinta (28/01), poderia ter sido a zebra. Também há o argumento de que Cranston já foi por demais incensado como protagonista da série Breaking Bad, pela qual ganhou quatro Emmy (consecutivos) e um Globo de Ouro interpretando o professor de química tornado chefão do tráfico Walter White. Mas o fato é que Cranston dá um show vivendo o genial roteirista Dalton Trumbo (1905-1976) – papel que deu a ela a indicação ao Oscar 2016 de Melhor Ator.

    O ator americano, que completa 60 anos em março, não sabia que seria indicado ao Oscar e ao BAFTA (o ‘Oscar’ britânico) de Melhor Ator – indicações que sinalizam uma próspera fase na sua carreira no cinema – quando conversou com Época no 59o. BFI London Film Festival, no final de outubro do ano passado. Mas estava eufórico – ainda parecendo contaminado pelo espírito invencível de Trumbo –, além de bastante bem humorado. “Ele é movido a trabalho”, disse Cranston sobre o personagem, cujo apogeu, queda e retomada, assim como os problemas que causou à sua família e amigos são tema do filme.

    Trumbo foi indicado ao Screen Actors Guild Awards 2016 (Sag Awards), com cerimônia neste sábado (30/01), onde lidera o número de indicações nas categorias: Melhor Elenco, Melhor Ator, para Bryan Cranston, e Melhor Atriz Coadjuvante, para Helen Mirren (também ótima como a atriz e influente colunista de fofocas Hedda Hopper). O filme de Jay Roach (Austin Powers) com roteiro do bamba John McNamara baseado em fatos reais e no livro de Bruce Cook (corroteirista) foi muito aplaudido em Londres, num festival em que predominou o tom político com filmes denunciando abusos, seja contra as mulheres no Reino Unido (As Sufragistas) seja contra os comunistas nos EUA, como foi o caso de Dalton Trumbo e mais nove camaradas.

Eles entraram para a história como os Hollywood Ten, presos em 1947 por se recusarem a delatar e testemunhar perante uma  comissão parlamentar de inquérito da Câmara dos Representantes dos EUA, presidida pelo senador Joseph McCarthy, para averiguar a suposta infiltração de comunistas no cinema. Boicotado pela maior e mais poderosa indústria cinematográfica, Trumbo conseguiu driblar o cerco, escrevendo roteiros trash encomendados por estúdios por muito menos do que ganhava.

Trumbo vai à guerra

    Ex-repórter de jornais pequenos, com passagem pela Vogue americana e romancista, Dalton Trumbo estava no auge como roteirista de filmes quando começou uma imensa pressão dos órgãos do governo americano imposta em Hollywood para que ideias comunistas não fossem disseminadas nas salas escuras pelos EUA. Em 1939, à beira da Segunda Guerra Mundial, Trumbo escreveu o clássico pacifista Johnny Vai à Guerra, vencedor do National Book Award (chamado à época de American Book Sellers Award), inspirado em um artigo que leu sobre um soldado que ficou desfigurado após lutar na Primeira Guerra Mundial.

    Embora ainda não fosse filiado ao partido Comunista quando a Alemanha invadiu a União Soviética em 1941, Trumbo recebia, por causa de Johnny Vai à Guerra, cartas de todo tipo de gente (incluindo supostos simpatizantes do Partido Nazista), as quais ele mesmo se encarregou de entregá-las ao FBI para investigação. Foi um tiro no pé.

Caça aos ‘commies’

    Em plena Guerra Fria, a ficção também pagava o pato pela paranóia Macartista, que perseguia e encarcerava, com ou sem evidências, por subversão quem fosse ou fosse considerado comunista – ou qualquer outra coisa fora da casinha da cartilha americana. Diretores e os estúdios colaboravam com a caça aos ‘commies’, entregando colegas – quase todos caíram no ostracismo, enquanto Trumbo dizia que os perdoava (seria culpa no cartório pela sua própria atitude de delação no passado, que o assombrava?) e dava a volta por cima.

    Morando no México com a família, escrevia sem parar (foram mais de 30 roteiros sob pseudônimo). Até que, em 1960, recebeu crédito por Exodus, sucesso que só não foi maior que Spartacus, no qual Kirk Douglas escancarou: sim, tratava-se de um roteiro de Dalton Trumbo. O talentoso e tinhoso escritor seria reintegrado ao Writers Guild of America West, o sindicato dos roteiristas de Hollywood. Seu último filme foi o clássico Papillon (1973), baseado no romance autobiográfico de Henri Charrière.

    A seguir, Bryan Cranston fala mais sobre Trumbo, cinema e personas non gratas na indústria.  

O que faz de Trumbo um filme tão necessário e atual?
Bryan Cranston – Acho que, no âmbito internacional, Trumbo mostra que toda vez que um governo cerceia a liberdade de seus cidadãos, com base no medo e com apoio da imprensa e da indústria do entretenimento, é motivo de alarme. E mostra que isso pode acontecer até nos Estados Unidos, onde a primeira cláusula da Constituição dos EUA, que garante a liberdade de expressão, credo e agremiação pacífica, foi brutalmente desrespeitada pelo governo do país durante a perseguição aos comunistas. O filme é um alerta para que esse tipo de coisa não seja mais tolerada.

Tendo começado sua carreira nos anos 70, você já ouviu algum ator, diretor ou roteirista mais velho comentando sobre algum tipo de perseguição como Trumbo mostra?
BC – Honestamente não posso dizer que tenha presenciado algo nesse sentido.

Trumbo é famoso pela eloquência de seu vocabulário. Você tem uma frase predileta dele? Qual é?
BC – Acho que uma frase que insiste em retumbar em meus ouvidos e é bastante emblemática da mensagem de Trumbo é a que ele diz quando encontra John Wayne, concordando que ambos têm opiniões diferentes: “Nós dois temos o direito de estarmos errados”.

Quando você leu o roteiro pela primeira vez, o que o atraiu no filme?
BC –  Foi o fato de Dalton Trumbo ser um  escritor muito prolífico e de ele adorar ser dramático e intenso, além de usar palavras que seu público certamente não sabia o que queria dizer. Mas escolho sempre filmes que tenham uma boa história e como esta história é contada pelo texto – o que já é mais de meio caminho andado para o filme ser interessante e valer a pena.

E aquele pássaro de estimação de Trumbo? Como você conseguiu contracenar com ele com toda aquela intimidade?
BC – Pus o pássaro no meu ombro e ficamos amigos. Amei aquele passarinho! Ele adorava ficar cutucando meu bigode que, por sinal, era falso. Então, resolvemos incorporar a coisa como se fossem beijos. Ele também cutucava dentro do meu ouvido não sei o por quê. Era muito amoroso e esfregava a cabecinha no meu rosto. Peraí…Você trabalha para alguma revista especializada em aves? [risos]

Trumbo está sendo cotado para estar entre os indicados ao Oscar e outros prêmios. O que você tem a dizer sobre essa possibilidade?

BC – Nosso trabalho é focar em fazer o melhor enquanto atores de um filme e para promovê-lo, não ficar conjecturando sobre premiações. Queremos que Trumbo seja visto como uma história importante com um viés de entretenimento pelo maior número de pessoas além da crítica. Se pessoas acima disso quiserem celebrar a relevância do filme com indicações a prêmios, ótimo! Mas certamente não me preocupo com isso.

Você faria um filme com o qual não concorda com a mensagem política,ou seja: simplesmente por dinheiro?
BC – Faria, claro, se a grana fosse boa [risos]. Acho que pode ser até divertido defender um personagem que é seu antagonista,  ainda que no campo pessoal. Mas de for uma ofensa muito grande ao que você acredita pessoalmente, acho que pode ser um preço muito alto a pagar.

Considera correto e justo dizer que Spartacus foi o filme responsável pela retomada da carreira de Trumbo?
BC – Certamente foi a combinação de Exodus e Spartacus – especialmente Spartacus, onde ele viu seu nome na tela pela primeira vez depois da perseguição. Foi muito corajoso da parte de Kirk Douglas dar crédito a Dalton Trumbo publicamente, arriscando a própria reputação e possíveis represálias. Vale lembrar que o nome de Trumbo saía da lista negra aos poucos.

Acha que Hollywood está mais política do que nunca enquanto indústria?

BC – Acho que Hollywood sempre foi muito política. Acho que Hollywood é fascinada por política e vice-versa. Mas acho que seja circunstancial que em alguns anos há mais filmes políticos que em outros. Não que haja uma agenda – assim como não havia uma agenda comprometida em propagar ideias comunistas por meios de filmes. Mas filmes certamente são muito influenciados pela história e por quem está no poder em qualquer tempo.    

Acredita que há espaço e clima para perseguições políticas na Hollywood de hoje?
BC – Acho que politicamente não. Mas acho que há uma lista negra auto-imposta em Hollywood. O que influi é o comportamento  pessoal de certos profissionais, se eles estão envolvidos em algum crime ou acusação. Mel Gibson é um exemplo de uma espécie de banimento. Há alguns profissionais com quem pouca gente quer trabalhar por questões éticas e morais.

Você já se viu querendo pular fora de um filme por causa de alguém envolvido nele?
BC – Uma vez, há muitos anos, eu estava muito feliz por ter sido convidado para fazer um filme, principalmente porque era um trabalho e eu estava precisando. Foi quando me falaram que O. J. Simpson (ex-jogador de futebol americano e ator que, em 1994, foi acusado do assassinato de sua ex-mulher Nicole Brown e de seu amigo Ronald Goldman, e absolvido após um longo julgamento) estaria no filme também. Eu pensei: “Oh não, não pode ser!” Resultado: o filme desandou porque ninguém queria trabalhar com O. J. Simpson. Mas para mim, em 35 anos de carreira, há somente uma lista de quatro pessoas com quem não quero trabalhar.

Assista ao trailer de Trumbo:  

 
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