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Saoirse Ronan: menina prodígio do Oscar 2016. Foto: Gareth Cattermole/Getty Images for BFISaoirse Ronan: menina prodígio do Oscar 2016. Foto: Gareth Cattermole/Getty Images for BFI

Saoirse Ronan para viagem

(Londres, brpress) - Saoirse Ronan só tem 21 anos. Mas já mudou bastante de casa, de cidade e até de país. “Casa”? Esse lugar tornou-se um conceito relativo para a atriz – uma das mais jovens a serem indicadas ao Oscar. Por Juliana Resende.

(Londres, brpress) – Saoirse Ronan só tem 21 anos. Mas já mudou bastante de casa, de cidade e até de país.  Nascida em Nova York, a atriz foi morar na Irlanda aos 3, quando os pais decidiram voltar para casa. “Casa”? Esse lugar tornou-se um conceito relativo para a moça – uma das mais jovens a serem indicadas ao Oscar. Este ano, ela concorreu a nada menos que Melhor Atriz por Brooklin, também indicado a Melhor Filme e Roteiro Adaptado. 

    O filme foi destaque no Festival de Cinema de Londres, o 59. BFI London Film Festival, onde conversamos com Saoirse (pronuncia-se ‘Sorcha’). Ela é um doce e bastante pé-no-chão – bem diferente da arrogante adolescente com talentos literários Briony Tallis, de Desejo e Reparação (2007) – papel no qual a atriz não só impressionou o mundo com apenas 13 anos, mas foi indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante, como a espevitada e precoce irmã mais nova de Keira Knightley. Se você não está associando o rosto angelical de Saoirse a essa peste, tente lembrar dela como Hanna (2011), a garota assassina, ou mesmo a meiga Agatha de O Grande Hotel Budapeste (2014).

Divisor de águas

    Se Brooklin é, literalmente, um dilema para Eilis, o filme é um divisor de águas na carreira de Saoirse. Campeão de indicações ao BAFTA, o ‘Oscar’ do Reino Unido (premiação neste domingo, 14/02), concorre a Melhor Filme Britânico, Filme Britânico de Estreia, Roteiro (para Nick Hornby), Figurino e Maquiagem, Atriz Coadjuvante para Julie Walters, além da esperada indicação de Melhor Atriz para Sersh (apelido da atriz). Se consideramos como termômetro o London Critics Circle Film Awards 2016 – ao qual ela foi indicada à Atriz Britânica/Irlandesa do Ano e levou o prêmio –, deve levar também o BAFTA pela atuação em Brooklin.

    O filme mostra justamente a trajetória de amadurecimento da tímida garota irlandesa Eilis Lacey, forçada a imigrar para os EUA devido à falta de oportunidades na terra natal. Se essa mudança pode ser traumática ainda hoje, imagine nos anos 50. O escritor irlandês Colm Toibin, em cujo livro o filme de John Crowley foi inspirado, aborda com delicadeza as dores e delícias da conquista da independência e do empoderamento de Eilis, mesmo quando ela fica indecisa entre voltar para a vidinha pacata e segura na Irlanda ou continuar tocando o barco em NY. 

    O humor inglês de Nick Hornby se encarrega de deixar mais leve a tal “saudade de casa que faz você querer morrer”, como Saoirse Ronan define o mal que acomete a quem emigra do país natal.  A atriz diz que viu um bocado de si mesma na história de Eilis. Ainda mais quando, seis meses antes de começar a filmar Brooklin, ela alugou um apê em Londres e foi morar sozinha, deixando os pais na Irlanda (Sersh é filha única). E como a vida imita a arte, este ano Saorsie vai voltar a morar na Big Apple. 

    “Devo confessar que sinto-me um pouco como Eilis – e acho que vou sentir  o que ela sentiu”, desabafa a atriz, perante dezenas de jornalistas de várias partes do mundo. Vulnerável? Em Brooklin, Saoirse se transforma de uma garotinha tímida em uma jovem mulher forte, capaz de traçar seu próprio destino.  A seguir, Saoirse Ronan conta como abraçou essa personagem, que aliás procurava há anos: “Uma mulher irlandesa comum que não seja uma gnoma em uma fazenda encantada e nem uma guerilheira do IRA”, descreve. 

Você é certamente mais viajada que Eilis, mas o que realmente conecta você e a personagem?
Saoirse Ronan – Acho que é a experiência intensa de sentir falta de ter um lugar para chamar de seu e a constante sensação de estar dividida entre dois lugares, e também de vulnerabilidade.

Isso tem a ver com o fato de você ter decidido deixar a casa de seus pais na Irlanda e ir morar sozinha em Londres, recentemente?
SR – Sim. Eu estava vivenciando este processo quando conheci John (Crowley, o diretor de Brooklin). Achei incrível como ele e  Nick (Hornby, o roteirista) conseguiram passar esse sentimento de saudades de casa tão bem. Eu me identifiquei tanto com Eilis que fazer o filme foi como uma extensão da minha vida.

Sendo naturalizada irlandesa, como é sua relação com Londres?
SR – Essa cidade será sempre o lugar que me deu minha autonomia, meu senso de independência. Mas a boa nova é que eu estou indo morar em Nova York este ano! Então, parece que um ciclo vai se completar: eu nasci em NY, fui para a Irlanda, onde cresci e considero minha terra, apesar de sempre querer vir para Londres, que é a minha base. É engraçado porque Nova York sempre pareceu o lugar certo para mim e parecia também inevitável que um dia eu voltaria a viver lá. Percebi, acho que ainda mais depois de Brooklin, que NY e a Irlanda se complementam tão bem – talvez porque tantos irlandeses imigraram para lá. A Irlanda sempre vai me oferecer a segurança da infância, onde estão minhas raízes, meu passado, e NY representa oportunidades e o futuro.

Namorar nos anos 50, com todo aquele romantismo e comprometimento, como o filme mostra, é quase o oposto do ‘ficar’ dos anos 2000, com a velocidade das redes sociais e sites de relacionamentos. Você gostaria de voltar no tempo na vida real?
SR – É assustador que a tecnologia tem dominado cada vez mais todo o tipo de comunicação e relacionamentos. Para mim, é muito importante focar na pessoa que está presente na sua frente e deixar a tela um pouco de lado. Acho que a maneira de se relacionar, no entanto, é algo muito pessoal para cada um. 

E o figurino do filme? Você se sentiu bem usando aquelas roupas vintage?
SR – A moda dos anos 50, ao contrário da atual, encorajava mulheres a terem curvas e orgulho delas. Era bacana ter bunda e peito naquela época! [risos]. Como não faço o tipo esquelética, curti muito usar a cintura marcada, aquelas saias rodadas, e tudo de mais feminino. 

Os looks da figurinista Odile Dicks-Mireaux materializam a transformação de Eilis de uma frágil emigrante para uma ágil imigrante. Essa foi a intenção? 
SR – O figurino de Odile é bem definido e marca a diferença entre a provinciana Irlanda e a Nova York do começo da cultura pop e do consumo de massa. As roupas são parte importante da transformação de Eilis e têm um glamour que a faz parecer um Kennedy voltando para a Irlanda. Essa sofisticação denota confiança e amadurecimento – Odile e eu trabalhamos juntas para que Eilis se vestisse com classe, mas sem ostentação – tudo muito consciente e condizente com o momento de alguém que está apenas começando sua vida mas já tem domínio de sua independência.

Qual é a peça-símbolo da conquista dessa independência, da transformação de Eilis? 
SR – Acho que são os óculos escuros. Eu não me lembro de tê-los usado em minha adolescência na Irlanda. Eles eram muito chamativos para um país com pouco sol! Acho que você precisa de muita confiança para usar este tipo de acessório. Sem falar nos saltos altos!

Teve vontade de incorporar alguma peça do filme ao seu guarda-roupa pessoal?
SR – Adoro azuis e verdes e estas foram cores escolhidas para representar o mar e o verde da Irlanda, enquanto o amarelo representa a riqueza e a vibração de NY. Mas a peça que eu desesperadamente quis pra mim foi o maiô verde que Eilis usa na praia… [Nick Hornby interrompe e diz que Saoirse Ronan “tem tudo para ser eleita a garota nacional da Irlanda usando aquele maiô” e todos caem na gargalhada – a cena é realmente ótima].

Como foi contracenar com Julie Walters [veterana atriz inglesa indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel de Mrs. Keogh, a dona da pensão onde Eilis mora em NY]?
SR – Ter Julie Walters no set foi o máximo! Ela é muito divertida e boa no que faz. Mas consegue ser humilde e tem uma energia contagiante. Mesmo depois de repetir as cenas dos jantares no pensionato umas 80 vezes e de estarmos fartas de comer stew [típico cozido irlandês], ela não perdeu o timing!

Na sua opinião, Eilis faz a escolha certa?
SR – Eu diria que Eilis realmente iria escolher voltar para a Irlanda. Por quê? Porque seria a decisão mais óbvia. É sempre mais fácil fazer uma vida no seu país de origem, onde você se sente mais seguro. Mas eu, pessoalmente, iria voltar para Nova York, porque, como diz Eilis, após retornar da visita à Irlanda para NY: “Voltei para onde não tenho passado mas é aqui onde está meu futuro”.  Acho que viajar é um vírus e quando você ganha a confiança de conviver com ele, ser você e fazer sua vida em qualquer lugar, essa experiência passa a ser só sua e cabe somente a você decidir o que fazer.

PS – Além de Brooklin, Saoirse Ronan poderá ser vista este ano nos cinemas brasileiros estrelando os filmes Lost River, estreia de Ryan Gosling na direção, além de Stockholm, Pennsylvania e Byzantium, que estreiam em breve.

(Juliana Resende/brpress)

REPRODUÇÃO TOTAL E/OU PARCIAL DESTE CONTEÚDO SOMENTE AUTORIZADO PELA BR PRESS.

Leia mais sobre Brooklin e assista ao trailer aqui.

Juliana Resende

Jornalista, sócia e CCO da brpress, Juliana Resende assina conteúdos para veículos no Brasil e exterior, e atua como produtora. É autora do livro-reportagem Operação Rio – Relatos de Uma Guerra Brasileira e coprodutora do documentário Agora Eu Quero Gritar.