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Gustavo LemosGustavo Lemos

Mudança de @res

(São Paulo, brpress) - Startups brasileiras estão se internacionalizando, valendo-se de prêmios, investidores e eventos que cortam caminho para o Vale do Silício. Por Juliana Resende.

Juliana Resende*/brpress

(São Paulo, brpress) – Com a ebulição de investidores internacionais em torno da pulsante economia brasileira, as startups made in Brazil estão atraindo atenção do capital estrangeiro, seja para atuar somente no mercado brasileiro, seja para se internacionalizar – ou ambos. É crescente a atenção a este setor, geralmente girando em torno da tecnologia da informação (TI) e economia digital, que começa a ganhar espaço próprio, mais estrutura e eventos-vitrine em pontos estratégicos, como o Vale do Silício, para capitalizar atenção e os passos rumo à internacionalização.

    No ‘Valley’, como é conhecido o hub onde as maiores empresas de TI convergem, há empreendedores dedicados ao atendimento e apoio a startups brasileiras, como o programa de aceleração Plug & Play Tech Center, e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), que está abrindo uma representação no Vale do Silício. “O primeiro objetivo é estabelecer um relacionamento mais próximo das startups brasileiras com este ambiente e a cultura de negócios do Valley, abrindo portas para vendas no exterior e ou mesmo para captação de investimentos estrangeiros”, diz Rafael Henrique Rodrigues Moreira, coordenador-geral de software e serviços de TI do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação (MCTI).

Hora certa, lugar certo

    Ratificando o mantra “É um bom momento para ser empreendedor no Brasil”, proferido pelo experiente investidor americano Ted Rogers, que mudou para o país e fundou a Arpex, uma das mais ativas firmas de venture capital abaixo da linha do Equador, Moreira anuncia o lançamento do prorgrama Startup Brasil, no final de novembro, que, dentre outras várias medidas de incentivo, está a abertura de uma unidade do MCTI no Vale do Silício. “Ela será destinada tanto a startups fomentadas pelo programa quanto outras empresas nacionais e estrangeiras que queiram apoio para internacionalização e/ou entrada no mercado brasileiro”, explica Moreira.

    Ele acrescenta que mais detalhes do modelo operacional da unidade do MCTI no Valley – criado com base em standards do benchmarking internacional para o setor, numa ação coordenada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) – serão divulgados no decorrer do processo, que vai começar com o edital para escolha de seis aceleradoras, em janeiro de 2013, que vão trabalhar no programa Startup Brasil, selecionando, em março, de 40 a 80 startups (sendo até 25% delas estrangeiras). Os recursos previstos pelo governo são de cerca de R$ 40 milhões até 2014. “Cada startup selecionada terá aporte de R$ 200 mil a fundo perdido”, diz Moreira.

Negócios na veia

    “Ao contrário do programa Start-Up Chile, por exemplo, que acelera muitas empresas visando o impacto social do investimento na economia, além do networking, o programa brasileiro está focado nos negócios – queremos capacitar o empreendedor para criar bons planos de negócios capazes de arcar com a competição global que é a realidade do setor de tecnologia da informação”, afirma Moreira. “Acreditamos que podemos ter três estrelas brasileiras faturando mais de R$ 100 milhões em 24 meses aceleradas pelo nosso programa, empresas que sejam grandes cases em modelos de internacionalização”.

    Para Moreira, as startups brasileiras têm tudo para representar um importante setor na crescente robusteza da sexta economia do mundo. “Somos um país de empreendedores e isso pode ser constatado nas mais diversas esferas. Estive num evento do Sebrae sobre empreendedorismo, numa capital do Norte, e tivemos  3.200 inscrições”, contabiliza, animado. “Os jovens querem ter seus próprios negócios de TI – e os investidores estrangeiros enxergam o Brasil com esse grande potencial”, ressalta. “Por isso, precisamos mais do que nunca capacitar o empreendedor brasileiro a competir com outros de países como os asiáticos e Índia”.

 O case PagPop

    Anfitriã de encontro reunindo centenas de empreendedores de todo o mundo na Califórnia, no começo de outubro, a Intel Capital, braço de investimentos do grupo Intel, anunciou investimentos de US$ 40 milhões em dez startups: quatro nos EUA, duas na China, e uma na Índia, China, Coréia do Sul, Taiwan e no Brasil – a PagPop, de Ribeirão Preto (SP), com centro de tecnologia no Rio – que desenvolveu um sistema de pagamento que permite a profissionais liberais receber pagamento com cartões de crédito por telefones fixos, celulares, smartphones e tablets. “O mercado para expandir este tipo de serviço transcende o Brasil”, diz Márcio Campos, executivo-chefe da PagPop.

    O valor exato do aporte não foi revelado, mas a empresa foi enquadrada na categoria série A, que vai de US$ 2 a 10 milhões. Foi o quarto investimento da Intel Capital no Brasil em 2012. As outras startups investidas são o portal de saúde Minha Vida, Pixeon, desenvolvedora de software para imagens médicas, e Elike Social Commerce, que possibilita abrir lojas virtuais no Facebook. Foi o segundo aporte recebido (o primeiro veio da nacional Cetus Investimento) pela PagPop, graças a um road show feito pelos EUA, possibilitado pelo prêmio do Sillicon Valley Bank, em março deste ano. “Foi um grande facilitador”, diz Campos. Agora com escritório também em São Paulo, a PagPop se prepara para receber um terceiro  aporte, ainda este ano. “Em 2013 teremos o Brasil como foco principal, mas já planejamos  expandir operações para a América Latina”, adianta o executivo, festejando o novo investidor: “É um ‘caps lock’!”, brinca, na gíria geek para um “peixe grande” – este que Campos não pôde revelar até o fechamento desta edição.

Na moda

    “Hoje está acontecendo no mercado uma situação invertida – tem mais investidor que empreendedor”. A conclusão é de Flávio Pripas, sócio-fundador da então byMK rebatizada de Fashion.me – primeira rede social de moda de que se tem notícia no planeta, onde as pessoas (leia-se mulheres) montam e comentam looks onlibe –, listada entre as 100 empresas mais inovativas do mundo pela revista Fast Company, também não revela o valor do investimento recebido da Intel Capital. Mas fala de boca cheia que a empresa acaba de abrir escritório em Nova York. Empreendedor nato, Pripas é um dos organizadores do evento BRNewTech, cuja ideia é criar uma plataforma de encontro entre empreendedores de alto impacto e trazer a cultura empreendedora do Vale do Silicio para o Brasil, principalmente seu mandamento-mor: compartilhar para crescer.

    E compartilhar experiências pode ser uma palavra de duplo sentido quando o objetivo é a internacionalização: “Na busca pela consolidação de nosso posicionamento no Brasil e na conquista dos EUA, aprendemos aquilo que chamo de regra número um para internacionalização – atentar para as especifidades de cada público, para as outras culturas, para as idiosincrasias de outros povos e países”, diz Flavio Pripas. “No meu negócio, que é moda e interatividade, percebemos que o público americano é muito mais reservado que o brasileiro e a conversa não acontece assim tão facilmente”. Resultado: é preciso investir também em parcerias e expertise locais. O Fashion.me contratou um funcionário americano e uma consultoria de moda especializada no segmento fashion de NY.

Presença internacional

    Pripas segue entusiasmado com o potencial do Fashion.me nos EUA: “O americano é o exemplo que todo empreendedor deve  tomar como base – ele tem grande mercado interno  mas pensa grande, internacionalmente”. A internacionalização, sob as duras e muitas vezes imponderáveis regras  do mercado, nem sempre é uma condição sine qua non para o sucesso de toda startup. Mas, uma vez decidido por este rumo, que faz diferença ter um endereço nos EUA, ah, isso faz! É por isso que o Plug & Play Tech Center, investidora e aceleradora de startups criada em 2010, oferece escritório por três meses no Vale do Silício, além da mentoria.

    É o brasileiro Fernando Gouveia, gerente de operações internacionais do Plug & Play Tech Center, o responsável por identificar startups de países emergentes que tenham potencial para terem sua internacionalização acelerada no Valley. “No momento, trabalhamos com três empresas do Brasil: Dabee, Mowaiter e IDXP“, diz o gerente, ouvido pela brpress antes de a startup catarinese SocialBase, focada no desenvolvimento de redes sociais corporativas, ter sido a mais nova brasileira selecionada para o programa de aceleração do Plug & Play.

  O foco dos negócios da aceleradora americana que, dentre os fundos de investimento parceiros estão o Accel Capital, Sequoia Capital e Menlo Ventures, que já investiram em gigantes da web como Facebook, Instagram, Skype, PayPal e Groupon, são software e internet, além de “um pouquinho de hardware”, diz Gouveia, ele mesmo citado pelo site Exame.com como um dos seis empreendedores brasileiros de destaque no Vale do Silício. Aos 25, o paulista já morou no México, na Grécia, em Taiwan e se formou em Finanças e Negócios Internacionais pela Santa Clara University. Ele deixou o Brasil aos seis anos e ensina: “As chances de uma startup obter investimentos estrangeiros aumentam muito quando estão baseadas nos EUA”.

GPS de supermercado

    O mineiro Gustavo Lemos, 32 anos, é co-fundador da IDXP, uma startup que desenvolveu uma tecnologia que rastreia e permite monitorar o comportamento dos consumidores em tempo real – no mundo real. “Colocamos etiquetas inteligentes nos produtos e carrinhos  de supermercados – como se fossem um GPS. Faço no mundo real o que os varegistas já fazem na internet”, explica Lemos, que foi eleito o Empreendedor Global do Ano, edição 2011, da IBM. A startup ficou em primeiro lugar no IBM SmartCamp Brazil 2011 e, em fevereiro deste ano, foi a campeão entre os nove ganhadores em todo o mundo no IBM Global SmartCamp. “Recebemos ligações de  clientes e investidores dos quatro cantos do planeta e foi como um tapa do tipo ‘acorda, moleque, pensa grande!”

    A primeira experiência da IDXP foi na rede mineira de supermercados Supernosso, em 2011. Em seis meses, começaram a ter resultados reais com aumentos de até 50% nas vendas. De lá até aqui a internacionalização trouxe suas dores e delícias. Entre as primeiras, o pesadelo da burocracia brasileira para uma empresa com sede aqui ter uma filial americana – “são trâmites intermináveis e custosos para uma startup como  transferências de propriedade intelectual,  definição de quem é a matriz e quem é subsidiária e, faço questão de citar, uma das regularizações com o Banco Central – que exige um balanço da empresa validado não só pelo contador mas por uma empresa de contabilidade certificada pelo BC – e a mais barata que encontramos cobra R$ 15 mil”, indigna-se o empreendedor. “É um dinheiro de investidor, para producão, que estamos gastando com burocracia”, diz, lembrando que apesar de o Brasil ser a sexta economia do mundo, o DoingBusiness, estudo do Banco Mundial realizado anualmente, traz o país em 132a. posição, atrás de Uganda e da Nigéria, no quesito dificuldades para abrir e manter um negócio.

Choque de realidade

    “Aqui no Vale, tomamos um choque de realidade. Fica difícil querer operar no Brasil quando comparamos com as facilidades daqui e de outros países desenvolvidos”, argumenta Lemos, que está vivendo na Califórnia há quatro meses com mais duas pessoas da empresa, e cuja IDXP está negociando com as maiores redes varejistas da França (a empresa também tem escrtório em Paris) e EUA.  “Foi a melhor coisa que fizermos – vir participar de todo esse ecossistema. Espero poder levar um pouco dessa cultura de volta ao Brasil”. Sobre o fenômeno do empreendedorismo no país, Lemos é cauteloso: “É um movimento na superfície na água perto dos problemas estruturais da burocracia brasileira”.

    Para ele, que já está em seu segundo empreendimento, o empreendedor brasileiro tem de ter um pouco de “fool” e de louco – além de, claro, misturar doses cavalares de paixão, resiliência e direcionamento em suas decisões por manter o negócio mesmo após dar certo e ainda mais quando tem a oportunidade de se internacionalizar. “Estou fazendo das tripas coração para fazer a transição –  e gastando dinheiro de investidor para pagar a burocracia”, diz o engenheiro de Telecomunicações formado pela PUC-MG, que fez pós-graduação em Finanças e Negócios pela Stanford School of Business, lembrando dos tempos nem tão longínquos em que conseguiu o primeiro aporte de venture capital para a IDXP (francês) e o segundo (de um angel brasileiro), e revelando que  negocia agora com um novo investidor.

Tupi or not tupi

    Foi o crescente interesse de investidores em potenciais novas empresas brazucas que levou o  pioneiro e mais influente blog sobre startups brasileiro, o Startupi (com acento no “i”, de Tupi) a realizar, em meados de setembro, o encontro StartupiCon: Valley Meets Brazil, no calor da feira de TechCrunch Disrupt, que aconteceu de 08 a 12/09, em San Francisco (EUA). Este ano, o evento contou pela primeira vez com o Brazilian Pavillion, espaço especial onde cerca de 40 jovens empresas tupiniquins expuseram ideias e cases para investidores estrangeiros. “Houve muito interesse e alguns empreendedores brasileiros tiveram até reuniões com possíveis investidores”, diz Diego Remus, editor do Startupi, que oferece gratuitamente a cartilha do ‘statupês’ Startupidia, explicando termos que são a base da linguagem corrente no universo das startups.

    Que chegou a hora dessa gente brozeada (ok, nem tanto!) mostrar seu valor não resta dúvida. “Existe oportunidade no Brasil, mas o país não é um “velho Oeste” a ser desbravado”, ressalta o empreendor serial Bob Wollheim, sócio do Startupi e fundador do youPIX, o maior festival de cultura na internet do Brasil, ele mesmo fazendo ‘pitch’ no  StartupiCon: Valley Meets Brazil com a Appies.co, uma “aceleradora” voltada para desenvolvedores de APPs, os adorados aplicativos para smartphones.

Pé no chão, frango a passarinho com a mão

            “É preciso fornecer mais subsídios a estes investidores estrangeiros sobre o processo de fazer negócios no país. Mostrar um cenário mais pé no chão, com discussões e participantes mais maduros, compartilhando experiências de sucesso e fracasso”, acredita. Wollheim, que tem como parceiro o investidor Danilo Amaral, da Trindade Investimentos, na Appies, concorda que há um hype em torno do Brasil e acha isso ótimo.

    “Grande parte da energia empreendedora precisa de hype – ajuda a chamar atenção e dá coragem para fazer”, diz. “Mas percebemos que é preciso informação mais consistente para nortear investidores estrangeiros no Brasil”. Ou seja: num país complexo, com suas idiossincrasias e burocracias, a começar pela busca de sócios e parceiros brasileiros – “para que eles próprios se tornem mais ‘brasileiros’ “, recomenda Wollheim. Danilo Amaral, cuja empresa patrocinou o StartupiCon: Valley Meets Brazil, além de outros eventos para startups brasileiras, tem outra receita: “Antes de fazer negócios no Brasil, tem que aprender a comer frango a passarinho com a mão!”

Musa brasileira

No mundo aceleradíssimo da economia digital, talvez não haja elogio maior do que dizer que alguém é um “empreendedor serial” (serial entrepreneur, no original inglês). Ou seja, alguém que cria um negócio atrás do outro. Se alguns não dão certo, tenta-se outra vez e quantas vezes forem necessárias. A jovem brasileira Bel Pesce, musa do empreendedorismo tupiniquim que deu certo no Valley, ajuda os navegantes a entenderem como funcionam os mecanismos e o ambiente de negócios do Vale do Silício, onde vive, no livro A Menina do Vale. Trata-se de um mix de diário e manual de sobrevivência.

Nascida em São Paulo, Bel vendeu até bijouterias antes formar-se no respeitado Massachusets Institute of Technology (MIT), trabalhou na Microsoft e fez mestrado dentro do Google — tudo isso antes dos 25 anos. Bel integra o time de uma startup que oferece um aplicativo para controle de gastos pessoais — a Lemon, que recebeu aporte de US$ 8 milhões do fundo de capital de risco Maveron, do CEO da Starbucks Howard Schultz — e avisa: “O caminho até lá não é fácil, embora já tenha sido mais difícil”.

(*) Juliana Resende, co-fundadora e editora-executiva da agência de conteúdo brpress, é jornalista há 20 anos, com pós-graduação em Conflitos e Processos de Paz pela University of Ulster, Irlanda do Norte, e empreendedora. Fale com ela pelo email [email protected] e/ou pelo Twitter @brpress e Facebook.

Juliana Resende

Jornalista, sócia e CCO da brpress, Juliana Resende assina conteúdos para veículos no Brasil e exterior, e atua como produtora. É autora do livro-reportagem Operação Rio – Relatos de Uma Guerra Brasileira e coprodutora do documentário Agora Eu Quero Gritar.