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Verão ‘quente’ para Sarkozy

(brpress) - Para ONU, há contradição entre Liberté, égalité, fraternité e expulsão dos ciganos, definida como “renascimento do racismo e da xenofobia”, camuflados por instrumentos legais. Por Leda Lu Muniz.

Leda Lu Muniz*/Especial para brpress

(brpress) – As autoridades francesas deportaram nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira (19/08) uma dezena de ciganos romenos pelo aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, enquanto outros 79 partiram pelo aeroporto Saint-Exupéry em Lyon. Assim, a França começa a polêmica expulsão de 700 ciganos. São os primeiros voos de cinco que estão previstos para os próximos dias, de acordo com o ministro do interior Brice Hortefeux.

    Os deportados são da etnia romani, ciganos da Europa do Leste. Seus acampamentos estão sendo derrubados por todo o país, depois que Nicolas Sarkozy deu a ordem ao governo de evacuá-los e destruir a metade das instalações em que vivem num prazo de três meses. O ministro Hortefeux está cumprindo as ordens e, em menos de um mês, já desalojou mais de 50 acampamentos.

    A decisão de Sarkozy de expulsar os ciganos (romenos e búlgaros) da França surgiu exatamente quando o governo francês estava no alvo da crítica mundial devido ao escândalo político-financeiro conhecido como caso Bettencourt, envolvendo dinheiro para campanha presidencial por parte da herdeira da L’Oreal, Liliane Bettencourt,
e prevaricação envolvendo o ministro do Trabalho Eric Woerth.

    Estratégia eleitoreira para reconquistar a opinião pública, já que seu governo estava totalmente desmoralizado, usou a luta contra a delinquência como lema, para anunciar que “os delinquentes de origem estrangeira não merecem ser franceses”.
 
Ironia

    Irônico pensar que Sarkozy (filho de pai húngaro e marido de uma italiana, ambos naturalizados franceses), eleito por um país que sempre se vangloriou de valorizar os princípios de que todos os cidadãos nascidos ou naturalizados são iguais perante a Lei, acredite que essa medida desesperada e populista, vá conseguir sua reeleição.

    As críticas em relação a essa política do atual governo até pelos seus próprios deputados – Jean- Pierre Grand, do partido União Por um Movimento Popular comparou o fato às expulsões dos judeus da França pelos nazistas – estão sacudindo a opinião pública em todos os países-membros da UE.

    Moratória

    A Comissão Européia, por meio da vice-presidente para Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania, Viviane Reding, advertiu que a França “deve respeitar as regras no que se refere à liberdade de circulação e a liberdade de moradia” dos cidadãos europeus.

    Desde a entrada da Romênia e da Bulgária para a União Européia, seus cidadãos tem direito a livre circulação pelos países comunitários. Porém, a França impôs uma moratória até 2012 e que pretende se estender até 2014, e respondeu que as medidas adotadas “estão plenamente de acordo com as leis européias”.

    Contradição

    A ONU, por meio do Comitê para a Eliminação e a Discriminação Racial (CERD), após reunião em 11 e 12 de agosto, em Genebra, denunciou as recentes atitudes de Nicolas Sarkozy. O relator da sessão, o americano Pierre-Richard Prosper, clamou a França ao seu papel fundamental na defesa da liberdade e dos direitos do homem, destacando que atualmente existe uma contradição entre imagem que o país mostra ao mundo e a sua verdadeira realidade.

    Um outro especialista, Ewomsan Kokou, constatou também que a França está diante de um “renascimento do racismo e da xenofobia”, camuflados por instrumentos legais. A reação às críticas por parte do partido de Sarkozy foi igualmente dura. Seu porta-voz Dominique Paillé declarou que as conclusões do Comitê (CERD) o chocaram, já que “é composto por representantes de países que não respeitam os Direitos Humanos”. O Comitê é formado por 18 países entre esses China, Paquistão, Burkina Faso, além de Estados Unidos e Reino Unido.

    Algumas pesquisas de opinião apontaram um aumento na popularidade de Sarkozy que subiu para 34%, de acordo com o Le Parisien. Mas um dado curioso das pesquisas é que sete entre dez cidadãos acreditam que nenhuma das ações empreendidas nos últimos oito anos tenha sido eficaz para reduzir a criminalidade. Durante esse período Sarkozy ocupou duas vezes o Ministério do Interior, e chegou a Presidência em maio de 2007.

Agosto de 1789

    Os revolucionários franceses publicaram em 14 de julho de 1789 a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (aprovada pela Assembléia Nacional da França, em agosto de 1789) que representou a ruptura com o Ancien Regime, considerada a mais forte manifestação na defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana na Europa.
 
    Nessa Declaração, os franceses reconheciam que “a ignorância, o esquecimento e o desprezo dos direitos humanos são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção do governo”. A Declaração se preocupou principalmente com a defesa da liberdade e da igualdade.

    Tal documento serviu de base para a Declaração Universal dos Direitos Humanos adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. Portanto, a França possui um histórico na defesa da liberdade, da igualdade, da fraternidade.

    Segunda Guerra

    Após a experiência trágica da II Guerra Mundial e das atrocidades do nazismo, a Europa se voltou para a unificação e a igualdade.  Muitas foram os avanços nestes 60 anos. O bloco europeu hoje é constituído de 27 países, cujos cidadãos deveriam ter os mesmos direitos e deveres. E tais direitos estão sendo desrespeitados.

    A França faz parte de um bloco cujas regras e leis são para todos. Sarkozy quer se manter no poder a qualquer custo.
Até que ponto vale o risco? O mundo está atento…

(*) Leda Lu Muniz é mestre em Sociologia, especialista em Política Internacional, pesquisadora, consultora e analista de Relações Internacionais.  Fale com ela pelo e-mail [email protected], pelo Blog do Leitor ou pelo Twitter @brpress .

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