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Obra de Lina Iris Viktor. 

In the Black Fantastic reúne artistas negros

Visitamos a exposição In the Black Fantastic, em que arte contemporânea da diáspora africana subverte visão monocromática do mundo. Por Andrea Kirst

(Londres, brpress) – Na entrada do Southbank, lê-se: “There Are Black People in the Future”. É uma irônica provocação sobre representatividade para introduzir a coletiva de artistas negros ‘In the Black Fantastic, em cartaz até 18 de setembro na Galeria Hayward, agregada do centro cultural às margens do Tâmisa, ótimo para curtir o verão. E que verão!

In the Black Fantastic derrete ainda mais o cérebro. Onze artistas contemporâneos da diáspora africana recorrem à ficção científica, mitos e afrofuturismo para questionar “nossa” (sim, a minha e a sua, cara-pálida!) visão de mundo.

Nomes consagrados, como as americanas Kara Walker e Ellen Gallagher, e os britânicos Chris Ofili – ganhador do prêmio Turner, em 1998 – e Hew Locke, se encarregam de construir esta outra dimensão junto a artista menos conhecidos mas não menos ousados, como Lina Iris Viktor e seu autorretrato feito cartaz da mostra.

Segunda pele

Já na primeira sala, entendemos o porquê do “fantástico” do título. É o espaço dedicado ao escultor e artista performático americano Nick Cave (homônimo do músico australiano), que foi comissionado para criar uma escultura composta por centenas de moldes do seu próprio braço, unidos como elos de uma corrente.

Chain Reaction fica cercada pelos Soundsuits – obras de arte vestíveis que Cave começou a criar há 30 anos, em resposta ao brutal espancamento do negro Rodney King por um policial de Los Angeles.

Nick Cave’s Soundsuits in action. Vídeo: PBS NewsHour

“O artista americano mais alegre e crítico”, segundo o New York Times, veste estes trajes sonoros alegóricos, coloridíssimos, confeccionados com materiais tão diversos como cabelo humano e lantejoulas e penas, e sai por aí dançando, criando sons e “desaparecendo” dentro deles.

Ele se torna um ser camuflado, mascarado e, nesta segunda pele, esconde raça, gênero e classe, forçando o espectador a olhar sem julgamento. É quase uma metáfora involuntária da Hayward: fora do radar do turista acostumado aos famosos museus londrinos, a galeria pode passar desapercebida.

Distópica

Artista americana nascida no Quênia, Wangechi Mutu trabalha há mais de 20 anos usando pintura, colagens, instalação imersiva, performances e animação em vídeo para quebrar “certas hierarquias” relativas a raça, classe e gênero e conscientização ecológica.

Sua sala é estranhamente distópica, com esculturas de seres surreais feitas com chifres, cabelo, pedras e terra. O filme-colagem ‘The End of Eating Everything’ (2013), com a cantora Santigold (foto) incorporando um ser planetário glutão, é uma metáfora grotesca e espetacular do consumismo exacerbado da humanidade, que também é “capturada” e “engolida” ao longo de oito minutos.

Poder

Não se estranha que a curadoria optou por alinhar Lina Iris Viktor e Hew Locke nas salas seguintes.

As obras de Viktor, nascida na Libéria e radicada no Reino Unido, ficam literalmente majestosas contra as paredes vermelhas de sua sala, onde também ressaltam esculturas elegantes. São fotografias/retratos da artista disfarçada de rainhas corruptas, tiranas e bandidas, em uma referência à diáspora e as violentas ditaduras do continente africano.

O escultor britânico Hew Locke também explora figuras e símbolos de poder, autoridades, por meio de regalias e vestimentas de estilo militar. Locke, que está também presente atualmente na Tate Britain com a obra Procession, apresenta quatro “embaixadores” na Hayward.

Estátuas de figuras negras em trajes ornamentais a cavalo têm um terço do tamanho natural, mas são de um incrível gigantismo nos detalhes. Parecem vindas de uma terra fantástica: dignas, corajosas, cavalgando para o futuro paralisadas no tempo.

Salto alto


Mitos, ficção científica, tradições espirituais e o legado do afrofuturismo são reimaginados e recontextualizados em toda ‘In the Black Fantastic’. Os artistas Tabita Rezaire e Rashaad Newsome se apropriam do fantástico para abordar gênero e dualidade.

Tabita projeta mamilos sobre uma pirâmide para criticar as convenções ocidentais de binários e heterosexuais, invocando uma conexão espiritual com a África pré-colonial. Rashaad explora o universo queer, com colagens, vídeos e escultura poderosa de uma performer deitada sob uma mesa – usando um scarpin Louboutin. 

Atlantis negra

Ellen Gallagher desce do salto: trata do horror do tráfico de escravos no Atlântico. Suas pinturas mergulham em reinos míticos subaquáticos, habitados por ancestrais dos africanos afogados. A artista consegue dragar o público para as profundezas da saga dos negros escravizados.

 In the Black Fantastic grita a pleno peito em pleno Julho Negro (quando a mostra abriu e a vistamos) sobre a ambição destes artistas negros bem-sucedidos lidando com estigmas do racismo e cicatrizes históricas juntos.

“Juntamos outras formas de olhar a luta de todo dia, de ir além dos estereótipos em que as pessoas negras são confinadas”,

diz o curador Ekow Eshun, escritor e jornalista, também negro.
Andrea Kirst, especial para brpress

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