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Comida de Flor que alimenta a alma

(brpress) - Foco da empresa criada pela orquidófila Débora Alves são orquídeas, mas por meio das plantas cuida também de pessoas.

(brpress) – Pode acreditar. É difícil, mas encare como uma clássica ironia do destino  A orquidófila Débora Alves, criadora da Comida de Flor, era chamada de “dedo podre” pelos mais próximos da família. “Juro!” (risos), ela conta, gargalhando. “Eu não levava jeito com plantas”. Hoje, Débora desenvolve adubos orgânicos, ajuda a resgatar orquídeas, dá oficinas de plantio e reluta mas faz clínica de plantas. “É muita responsabilidade!”, diz ela. Concordamos. 

Lidar com seres vivos – e sensíveis –, como plantas, é um dom. O de Débora foi descoberto depois de um curso de cultivo de orquídeas no Viveiro Manequinho Lopes,  no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Ali, a vida dela começou a mudar: deixou um apartamento em SP e se instalou numa casa com um enorme quintal, em Cotia (SP). “A casa já veio com orquídeas”, lembra. “Muitas. Comecei a cuidar delas e não parei mais”.

Na entrevista a seguir, Débora Alves fala mais sobre sua trajetória verdejante e florida, que virou uma fonte de realização, antes de fonte de renda.

Você foi mordida pelo bichinho das orquídeas?

Débora Alves – Definitivamente! Aos poucos, fui cuidando das minhas e ajudando amigas a cuidar das delas, dando dicas. Depois de muitos pedidos, fiz minha primeira apostila, iniciei o curso, comecei a produzir o adubo… Faço tudo em casa, nas composteiras, e embalo para venda e doação. Ensinei a receita do adubo para uma cliente mineira que não conseguia comprar. Também ensino a produzir adubos.

Você tem conhecimentos de química para fabricar os adubos em pó e líquido? 

DA – Sim, estudei um pouco sobre micros e macros nutrientes. NPK, o mais tradicional do mercado de adubos, é nitrogênio, fósforo e potássio. São nutrientes químicos a base de sal. O NPK provoca a acidificação do solo, que queima e mata as bactérias naturais e afeta seu PH. 

Por isso a preferência por adubos orgânicos? 

DA – Sim, Adubos orgânicos, ao contrário, nutrem o solo e, por consequência, a planta, devido aos microorganismos presentes neste tipo de adubo. Adubos químicos, apesar de afetarem negativamente o solo, fazem aparente e rapidamente “bem” para as plantas porque contêm nutrientes. Mas depois de um certo tempo, com o empobrecimento do solo, a planta perde o vigor. Daí a necessidade e vantagem do adubo orgânico, que não empobrece o solo, ao contrário, o mantém vivo, com minerais, microorganismos e outros nutrientes, como magnésio, cálcio, enxofre, dos quais as plantas se alimentam.

Suas palestras sobre cultivo e oficinas de orquídeas no Centro de Educação para Sustentabilidade (CES), onde ajudou a montar o orquidário comunitário, é bastante procurado. Podemos dizer que isso se dá porque é uma planta “da moda” ou há algum diferencial? 

DA – Meu curso de cultivo básico de orquídeas é sem “palavrão” – como chamo os nomes científicos das orquídeas. Percebi que muitas pessoas tinham medo de nomes como Phalaenopsis, Cymbidiuns, Cattleya Loddiglossa, e pensavam: ‘Se o nome é difícil de falar imagina de cuidar?’ Assusta, né? Então eu tirei o foco dos nomes e coloquei no cultivo, chamando as orquídeas pelos nomes populares como borboleta, sapatinho, etc… São 35 mil espécies! Cada uma com um nome diferente, com um cultivo diferente… É uma planta extremamente resistente. Aprendendo um pouquinho do manuseio dá para cultivar legal.

Como você explica o fascínio das pessoas pelas orquídeas?  

DA – A explosão do consumo de orquídeas deve-se ao desenvolvimento de diversos híbridos (cruzamentos das espécies). isso para atender um mercado que crescia em busca de buquês de noivas, hastes com mais flores e cores diferentes. A planta na natureza só dá uma flor uma vez ao ano, com poucos botões e, dependendo da espécie, nunca no mês das noivas! Espécie é a planta no seu estado natural, como ela aparece na natureza. São caras e exemplares podem custar até R$ 35 mil. São exemplares de colecionadores, pela raridade e alto custo. 

Podemos dizer que o barateamento de algumas orquídeas incentivou o consumo? 

DA – Sim. Os produtores fazem vários cruzamentos, para baratear o custo. Em lojas grandes podem ser encontradas por até R$ 20 e atender a demanda. No mês de maio, por exemplo, a procura para casamentos, buquês de noivas e decoração de festas aumenta. 

Os cruzamentos entre espécies não enfraquecem as plantas?

DA – Os cruzamentos foram feitos com plantas mais resistentes, com melhor aclimatação e floração mais frequente. Portanto, o objetivo foi de fortalecer as plantas, aumentar a quantidade de flores e a variedade de cores, além de tornar a floração mais frequente. 

Você tem alguma espécie predileta? 

DA – Siiiiimmmm! TODAS! (risos). Particularmente gosto das Monopodiais, como as Vandas, Ascocendas e Phalaenopsis, mas gosto de estudar todas. Algumas espécies são muito peculiares. Aquela conhecida como sapatinho, por exemplo, tem apenas uma floração por ano, não produz sementes e a reprodução é através da divisão das touceiras (para gerar mudas). As orquídeas são plantas completamente diferentes das outras. Algumas são perfumadas (cheiro de coco, chocolate, mel), algumas são fedidinhas… Existem odores que não conseguimos identificar.

A cor do seu adubo líquido orgânico lembra o chorume. Vale a comparação? 

DA – Isso é bulying! (risos) Chorume é uma substância extremamente tóxica e poluente, tem mistura de materiais como fezes, metais pesados, mau cheiro… O meu adubo líquido orgânico é um biofertilizante. Não tem cheiro, é totalmente natural e produzido por minhocas que não comem qualquer coisa – tudo é selecionado. Só uso minhocas californianas na composteira. Elas interagem melhor com os materiais orgânicos e produzem mais microorganismos. 

Seu negócio e fascínio com plantas se restringe a orquídeas? 

DA – Busco qualidade de vida e tudo aconteceu de forma muito natural. Estudei as orquídeas, comecei a estudar sobre as árvores frutíferas que tinha no meu quintal, plantei mais algumas, depois fiz canteiro de ervas, comecei a fazer pequenos arranjos, etc. Estudei bastante sobre ervas e também comecei a dar cursos sobre elas. Faço também jardins e hortas verticais, dou cursos sobre plantas diversas (e não só orquídeas), ensino como fazer composteiras.  

E a clínica para plantas de terceiros? 

DA – Plantas têm valor afetivo (herança, foi de uma avó que morreu, presente). Às vezes,  a planta chega em estado debilitado… Quando a planta muda de lugar e ambiente, pode morrer, então é um serviço arriscado. Mas tem cada vez mais procura, dada a crescente falta de espaço nas casas das pessoas. A partir desta ideia, estou expandindo para um espaço mais adequado para alojar minhas plantas e também as plantas dos clientes. Além de cuidar das  plantas dos clientes, meu propósito maior é ensinar a cuidar de plantas, focando no efeito terapêutico da jardinagem na cura da depressão e de outras doenças, no conectar-se com a natureza, aliviar o estresse . 

Nesse sentido o regaste das orquídeas que você promove acaba sendo também o resgate de pessoas… 

DA – Eu quero deixar minha sementinha neste mundo, ver a alegria de uma pessoa tendo uma orquídea em casa, que as vezes acha jogada na rua. Com a ONG Ohquideia, resgatamos as plantas que perderam a flor, principalmente nos supermercados, porque perderam o valor comercial. A ideia é resgatar as plantas, mas muitas vezes descobrimos que resgatamos a nós mesmos, resgatamos o nosso vínculo com a natureza, com a nossa fé, com a esperança em um mundo mais florido, mesmo em tempos difíceis, isso tudo é muito gratificante!

Para onde vão as orquídeas resgatadas? 

DA – As plantas são levadas para as escolas. Parques, ruas, praças, etc. Na escola da minha filha, ensinei as crianças a cuidar das orquídeas. Num asilo de idosos, plantamos, recuperamos e distribuimos as plantas. As pessoas ficam alegres ao verem a planta florescer – o processo de recuperação das plantas atinge as pessoas que cuidaram, elas se recuperam junto. A ideia de resgate emocional das pessoas debilitadas traz consciência ecológica.

Comida de Flor participa da Ecofeira da Granja Viana aos domingos, das 8h às 13h,  e quartas, das 15h às 21h. 

Contato via Instagram: comida.de.flor