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Ziriguidum inclusivo 

(Rio de Janeiro, brpress) - Deficientes colocam seu bloco na rua e mostram que têm samba no pé e autoestima no enredo. Por Maria Cristina Miguez. 

(Rio de Janeiro, brpress) – Fernanda Honorato nasceu com Síndrome de Down; Waldir Lopes perdeu a visão há doze anos; Leonardo Braconnot tem a audição totalmente comprometida e Alessandra da Silva Gomes sofre de Osteogenesis Imperfecta (doença que causa fragilidade óssea). O que eles têm em comum? Muito samba na ‘veia’ e disposição – mais evidentes ainda no Carnaval. Todos participam de blocos e escola de samba que fazem essa festa popular cada vez mais inclusiva.

            Na folia de Momo, o enredo parece ser um só: o da alegria e da luta pela integração de pessoas com necessidades especiais que vivem com alguma deficiência. Fernanda Honorato, que não revela a idade (“Parei nos 29 anos”, brinca), é a rainha da bateria da primeira escola de samba inclusiva do Rio de Janeiro, a Embaixadores da Alegria, que desfila no Sambódromo desde que foi criada, em 2008.
 
Down da Portela
 
            Fernanda garante que o convite para o posto foi porque ela samba muito bem. “Sambar está no meu sangue”, diz ela, que também é a primeira passista com Síndrome de Down da Portela, escola do Grupo Especial e uma das mais tradicionais do Carnaval carioca. “Quando piso na avenida é uma adrenalina só. Dá um friozinho na barriga, mas é muito bom”, assegura a sambista, que vai desfilar em mais quatro escolas de samba mirins, abrindo o Carnaval do Rio na sexta-feira (04/03).

            Mas não é apenas o desfile que agrada Fernanda. Ela e a mãe, Maria do Carmo Honorato, participam das oficinas inclusivas no barracão da Embaixadores da Alegria. O trabalho faz parte da proposta da agremiação, que junta pais e filhos para criar máscaras, produzir adereços e fantasias, com o objetivo de promover integração por meio desta atividade lúdica.
 
Pra inglês ver
 
            O resultado é aproveitado no próprio desfile da Escola, fundada pelo inglês Paul Davis. Apaixonado por samba, ele conta que em 2007 teve hérnia de disco e não pode desfilar na Viradouro, outra escola do Grupo Especial. “Fiquei assistindo ao desfile pela televisão e comecei a pensar quão difícil deveria ser a vida de uma pessoa com deficiência.”

            A inquietude de Paul levou-o a fundar a Escola, que tem como proposta utilizar o samba e o Carnaval como instrumentos de inclusão social e emocional. “Nosso projeto une o sonho da Avenida com a realidade do dia-a-dia destes sambistas especiais, visando quebrar todas as barreiras de acessibilidade e os preconceitos de quem ainda os vê como incapacitados”, diz.

            A Embaixadores da Alegria, que no seu primeiro desfile, em 2008, encontrou a Marquês de Sapucaí vazia ao abrir o desfile do Grupo de Acesso, hoje tem 1.800 componentes,  60% deles com necessidades especiais, e encara o Sambódromo lotado.”Desde 2009 abrimos o desfile das Campeãs do Carnaval do Rio. É muito emocionante desfilar para cerca de 40 mil pessoas”, diz Paul empolgado, já imaginando a escola na avenida este ano, quando apresentará o enredo Sol é Luz, Luz é vida – A Embaixadores Ilumina a Avenida.
 
Pernas mecânicas
 
    Para desenvolver a temática, a Embaixadores da Alegria conta com dois carros alegóricos representando o sol e a praia num domingo ensolarado. “Nosso carro principal é composto de 22 integrantes, a maior parte com Down, e também por pessoas com duas pernas mecânicas que sabem sambar”, explica o presidente da Embaixadores. “A segunda alegoria terá dez pessoas com problemas de lesão cerebral”, revela o presidente da Escola, que faz disputa para escolher o samba-enredo.
 
            Waldir Lopes, 62 anos, tornou-se compositor ao buscar alguma atividade que o mantivesse ocupado depois de ter perdido a visão. “Há três anos, venho participando de diversos blocos inclusivos e também da Embaixadores. Já tirei primeiro, segundo ou terceiro lugares nos concursos de samba-enredo. Mas o que importa é mostrar que um deficiente pode fazer de tudo”, festeja.
 
Vila Isabel
 
            Lopes sonha em, um dia, fazer o samba de alguma grande escola do Grupo Especial. Enquanto a oportunidade não vem, compôs com a presidente do grupo Anjos de Visão, Cheila Felton, a marchinha Tô no Gargalhada Pra Fazer Você Sorrir, para o bloco Gargalhada que desfila no domingo de Carnaval (06/03), na Avenida 28 de Setembro, rua mais tradicional de Vila Isabel, bairro de Noel Rosa.

            Fundado em 2005, por Yolanda Braconnot e Francisco Rocha, a proposta era criar um bloco irreverente que pudesse tratar de forma jocosa fatos e assuntos pitorescos ocorridos no país – este ano o enredo é o palhaço Tiririca, hoje deputado federal.

    “Desejávamos um bloco alegre, divertido, que pudesse reunir pessoas de diferentes idades, gêneros, preferências sexuais… Torná-lo inclusivo se deu forma espontânea. Primeiro, em função da ideia de juntar foliões os mais diversos possíveis; Segundo, porque o meu filho é surdo e participa desde a criação do bloco como a gargalhete Kitana MacNews”, conta a fundadora.
 
           Yolanda diz que os amigos do filho, que também sofrem de deficiência auditiva foram chegando e a eles se uniram cadeirantes e pessoas com muletas. “Colocamos até um intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) para facilitar a integração, já que tínhamos muitos surdos no bloco – até mesmo na bateria”, relembra a presidente do bloco, que este ano conta com um reforço especial, o do grupo Anjos de Visão.
 
Autoestima
 
            Criado em 2008, o Anjos de Visão, que reunia inicialmente deficientes visuais, hoje tem 150 pessoas com diferentes tipos de deficiência. “Nosso intuito é levantar a autoestima das pessoas com deficiência, mostrar o talento que têm e incentivar a família do deficiente a incluí-lo na sociedade. Pessoas com necessidades especiais não têm que estar escondidas”, defende Cheila Felton, fundadora do grupo.

            Segundo ela, o desfile desse ano vai contar com alguns militantes pela inclusão, como a fotógrafa Kica de Castro, diretora da primeira agência de modelos deficientes do Brasil, sediada em São Paulo, além de celebridades, como a atleta Terezinha Guilhermina e o cantor Gabrielzinho do Irajá, ambos com deficiência visual.
 
Alegria e dignidade
 
            “Queremos mostrar a superação das pessoas deficientes, com alegria e dignidade. O importante é sermos reconhecidos como pessoas felizes, não como coitadinhos. Afinal, temos os mesmos direitos na sociedade”, enfatiza Cheila.

            Foi pregando igualdade e integração que, em 2004, surgiu o bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou, formado por profissionais e usuários da rede de saúde mental do Rio de Janeiro. O nome do bloco foi sugerido por um usuário do Instituto Philippe Pinel, que argumentou: “Não vamos fazer um Carnaval apenas pra quem já pirou, vamos pra rua brincar com quem tá pirando!”, conta Neli de Almeida, fundadora do bloco.
 
Auge
 
            Desde o seu surgimento, o Tá Pirando, Pirado, Pirou desfila na Avenida Pasteur, na Urca, local que abrigava o primeiro hospício da América Latina, o Pedro II. Neli conta que o desfile é o auge de um trabalho que começa com a participação dos usuários em todas as atividades do bloco, desde a escolha do enredo passando pela organização do concurso de sambas, a confecção de alegorias, fantasias, até a produção do desfile.

            “Um rico espaço de convivência, de troca de ideias e de experimentações estéticas”, assegura Neli, dizendo que mesmo não sendo um grupo terapêutico, já que não há a relação técnica com os usuários, “a turma que está com a gente nunca mais se internou”. Para ela, esse é o maior indicador de que esse trabalho tem valor.
 
Porta-bandeira
 
            Quem também se sente valorizada é Alessandra Gomes, 20 anos, que fará sua estreia no Carnaval desfilando como porta-bandeira da Embaixadores da Alegria. Ela, que há três anos viu pela televisão o desfile da escola, diz ter sonhado um dia também estar entre seus componentes. O convite  veio por meio do grupo de dança de que participa, na Associação Niteroiense de Deficientes Físicos.

            Ela, que desde o início de fevereiro ensaia toda semana com seu parceiro, acha que vai fazer bonito na avenida. “O mais difícil é acostumar com o peso da bandeira”, conta. Alessandra revela que está ansiosa para realizar seu sonho. “Sempre que fico nervosa, começo a rir sem parar. Mas acho que quando entrar na Marquês de Sapucaí,  vou rir é de alegria”, celebra.
 
(Maria Cristina Miguez/Especial para brpress)