Regina Casé em Viva! Vida! Foto: Ariel Cavotti Regina Casé faz da vida um ato cósmico
Monólogo Viva! Vida! é uma jornada surpreendente que atravessa o cosmos.
(São Paulo, brpress) – O que esperar de Regina Casé no teatro? Tudo! A atriz, oriunda do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, entrega espontaneidade, humor, ciência, biologia e botânica em cena, enquanto conecta a plateia à infernal vida ‘always on’.
O diretor, ator e dramaturgo Reinaldo Santiago, que acompanhou esta que vos escreve à estreia da peça em São Paulo (Teatro Sérgio Cardoso), após temporada no Rio, explicou a “técnica”:
Respiro programado
“Como o espetáculo é uma ‘aula’, sem ação dramática e no formato de monólogo, ficaria muito massante somente o texto sobre algo tão complexo como a origem da vida na Terra, sem interagir com o público por meio de situações triviais”, diz Santiago.
É que Regina se emaranha em notificações e ligações no WhatsApp enquanto toca a peça. São intervenções propositais excessivas. E isso é algo que tira um bocadinho o brilho do espetáculo como um todo.
Beleza e caos
Tirando a dispersão do zap, Viva! Vida! acontece lindamente, enquanto atravessa o cosmos, mergulha na intimidade das células humanas e na paradoxal imensidão – e pequenez – da aventura humana na Terra (quiçá no universo).
A vida é tão rara, já dizia Lenine. E Regina também. Mais ainda sua parceria com o marido, Estevão Ciavatta, que assina o texto, e o cientista Antônio Nobre, que deu a ideia da coisa toda como consultor, e ainda subiu ao palco para compartilhar os aplausos.
Tecnologia e poesia
Em cena, tecnologia e poesia se encontram para mostrar que, apesar do caos exterior do século XXI, existe grandeza e beleza dentro de cada um de nós – e que, afinal, viver é um ato cósmico.
O cenário eletrônico de Daniela Thomas contracena com o texto divinamente. Quanto a bola azul reluzente que contracena com Regina, há controvérsias; eu gostei, Santiago não.
Trombone no Musk
Mas Regina Casé tira de letra e tira sarro de Elon Musk e os senhores do mundo hiperconectado. Segundo ela, nem o capitão Kirk, de Jornada nas Estrelas, perdoou o surto suborbital do trilionário trumpista.
“O espaço é escuro e solitário”, ele teria dito, decepcionado com o que viu. A Terra é viva. E Regina torna a viagem mais divertida, trazendo o trombone de Asdrúbal.
Esse grupo não foi apenas uma companhia teatral nascida no Rio de Janeiro, em 1974, em plena ditadura militar. Foi berço da estética que moldou o humor, a TV e a cultura pop brasileira a partir dos anos 1970 e 1980; o chamado “besteirol”.
Deboche existencial
Enquanto o teatro engajado da época fazia protesto político (estilo Arena ou Oficina), batendo de frente com a censura, o Asdrúbal resistia com anarquia e deboche.
Viva! Vida! sintoniza esse espírito ao pulsar do Brasil no ecossistema do planeta, por causa da Amazônia, da biodiversidade e da cultura – que, como diz o patrocinador Cristália, “faz bem à saúde”.
E, claro, por causa de gente como os envolvidos nesta montagem que é, ao mesmo tempo, um desabafo contemporâneo e uma celebração da existência.
(Juliana Resende, brpress)
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