Acesse nosso conteúdo

Populate the side area with widgets, images, and more. Easily add social icons linking to your social media pages and make sure that they are always just one click away.

@2016 brpress, Todos os direitos reservados.

José Padilha rebateu a críticas de Dilma Rousseff sobre O Mecanismo. Foto: Alexandre Loureiro/NetflixJosé Padilha rebateu a críticas de Dilma Rousseff sobre O Mecanismo. Foto: Alexandre Loureiro/Netflix

‘A corrupção não tem ideologia’, diz José Padilha

(brpress) - Diretor rebate críticas e diz que série O Mecanismo mostra corrupção como “uma lógica estruturante da política brasileira”. Por Juliana Resende.

(brpress) – A estreia da série sobre a corrupção endêmica na política brasileira O Mecanismo (Netflix), em 23/03, em 190 países – Brasil obviamente incluído –, na semana do julgamento do último recurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já condenado, não poderia ser mais adequada. A série, baseada na Operação Lava Jato e dirigida por José Padilha (Tropa de Elite e Narcos), mostra como os governos do PT abraçaram sem escrúpulos uma prática que sempre existiu no país: o financiamento da troca de favores entre políticos e gestores com dinheiro público.

O Mecanismo começa com um resumo preciso do estado das coisas no Brasil: “O que f*de nosso país não é a violência nas favelas, não é a falta de educação, não é o sistema de saúde falido, o déficit público nem a alta taxa de juros. O que f*de nosso país é a causa de tudo isso”, diz o policial federal Marco Rufo, vivido pelo ator Selton Mello, e inspirado num delegado na vida real. “Mas como tudo na série, não se trata de uma reprodução fiel do noticiário. O Zé [Padilha] e a Elena Soárez [roteirista] criaram um thriller, uma obra de ficção baseada em fatos reais”, ressalta Mello. 

Cidadão instigado

“Rufo é um cidadão instigado, um cara que não aguenta mais esse estado das coisas no Brasil – nós”, define o ator. “E ele quer lutar, quase que quixotescamente, mas O Mecanismo [ou seja, a corrupção endêmica] não deixa. Ele é tratado como louco e somente a Verena, uma outra policial [Caroline Abras], que acaba seguindo em frente obstinada em prender os corruptos, o entende”. Por ser a dramatização de algo que não acabou, Mello acha que podem vir aí “umas 30 temporadas” e que “falar do que está acontecendo é ótimo – Padilha é corajoso e um dos caras mais inteligentes que conheço”. 

Quando Selton Mello concedeu esta entrevista, as críticas a O Mecanismo ainda não haviam invadido as redes sociais, especialmente de petistas ofendidos com os inevitáveis nomes aos bois (embora sejam trocados na ficção) – leiam-se doleiros, operadores, diretores de estatais e presidentes da república. Ora, Janete é claramente a ex-presidente Dilma Rousseff, que disse em uma entrevista usar esse nome falso em ligações de telemarketing, numa referência a seus anos como guerrilheira na clandestinidade. Dilma criticou a série: “O diretor inventa fatos. Não reproduz ‘fake news’. Ele próprio tornou-se um criador de notícias falsas”, afirma sobre Padilha. 

‘Boboca’

O diretor lembrou, em entrevista coletiva em São Paulo sobre o filme 7 Dias em Entebbe (longa mostra sequestro de avião que marcou o conflito israelo-palestino nos anos 70), que está preparado para críticas. “Fiz Tropa de Elite 1”, brinca, numa referência a um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional, vencedor do Urso de Ouro, o maior prêmio do Festival de Berlim.

Padilha definiu como “boboca” a reclamação de Dilma, cuja tônica foi a frase “estancar a sangria”, dita na verdade pelo senador Romero Jucá ao delator Sérgio Machado, no sentido de que algo precisava ser feito para impedir as investigações da Lava-Jato, ter sido atribuída na série ao personagem equivalente a Lula. 

“Chequei os diálogos. São diferentes. Não houve transcrição por parte da Elena”, rebateu José Padilha ao chororô de Dilma e lulo-petistas, que ameaçaram cancelar suas assinaturas da Netflix. Selton reafirma que admira a habilidade de Elena Soárez de fugir da mera transcrição dos fatos, criando emendas ficcionais necessárias para que a trama faça sentido em outros países que não só o Brasil. “A Lava Jato é complexa”, admite o ator, assim como o fato de a série tê-lo feito se interessar por política – coisa que nunca havia acontecido antes.  

Sem ideologia

A corrupção não é um privilégio brasileiro. E não estou preocupado com a polarização, especialmente no Brasil, mas com a reflexão”, argumenta Selton Mello. “Estamos fazendo um corte histórico, como fez o filme A Lei É Para Todos e o livro Lava Jato, de Vladimir Netto, em que a série também foi baseada, bem como muitas obras que já existem ou virão a existir sobre o maior escândalo de corrupção da história do Brasil.”

Padilha afirma que fato de o Jucá ter usado a expressão “estancar a sangria” [no sentido de impedir a continuidade da Lava Jato], colocada na boca do personagem que seria equivalente a Lula na série, não a interdita: “Escritores continuam livres para fazer uso dela”. E responde com certa ironia sobre o fato de os petistas terem se incomodado apenas com frases – questões bem menores que os rios de dinheiro desviados descobertos pela Lava Jato.  

O diretor continua: “Minha tese e a tese intrínseca apresentada neste show é: ‘A corrupção é uma lógica estruturante da política brasileira nas cidades, nos estados e no âmbito federal desde o governo Sarney até hoje. A corrupção não tem ideologia – é de direita e de esquerda –, assim como não tem partido – está no MDB, PT, PSDB e outras siglas. É com grande estarrecimento que vejo as pessoas defendendo um lado e outro, se recusando a admitir o óbvio: O Mecanismo tornou-se a engrenagem generalizada no Brasil”. 

(Juliana Resende/brpress)

Leia mais sobre José Padilha 

Padilha. Assista ao trailer 2 de O Mecanismo:

Juliana Resende

Jornalista, sócia e CCO da brpress, Juliana Resende assina conteúdos para veículos no Brasil e exterior, e atua como produtora. É autora do livro-reportagem Operação Rio – Relatos de Uma Guerra Brasileira e coprodutora do documentário Agora Eu Quero Gritar.

Comentários